17/06/2012

Textos: Triste

Esses dias atrás eu descobri o blog da Tati Bernadi e gostei muito dos textos dela, e resolvi postar aqui, compartilhando com vocês esse gosto literario, espero que vocês possam aproveitar, e tirar algo de bom de seus textos.


Triste

Ficar triste é sempre pela primeira vez. Já fiquei triste tantas 
vezes, mas nunca assim. Porque o "assim" de ficar triste é 
sempre pela primeira vez. Já fiquei mais triste do que estou 
agora, mas nunca tão triste. Porque o "tão" de ficar triste,
quando é tristeza mesmo, é sempre arrebatador e assustador e 
é pela primeira vez. É sempre com o peito virgem e assustado e
infantil que ficamos tristes. É sempre com cinco anos, com
fome, nus, gelados, segundos antes de morrer de falta de
sentido por ter nacido.

A tristeza é uma criança de rua com uma faca apontada pra 
falta de amor que o mundo ofereceu pra ela. Uma meleca n
nariz que nenhuma mãe limpou se transformando nos olhos de
um adulto assassino. A tristeza é um pedaço de vidro numa 
mãozinha pequena. A tristeza é um anjo e foi ficando bem diabólico.
A tristeza é ter que comer um risoto caro, com amigos felizes,
quando só se quer vomitar no banheiro de casa, sozinha. E triste.

Eu quero vomitar tudo. A água, a saliva, a língua, o seco da
garganta, a amígdala, o apartamento de milhões de metros
quadrados vazios que virou o meu peito. Quero vominar minha
pele, meus olhos, meu fígado, meus horarários, minhas listas de
vontades. Eu quero tudo fora, tudo fora. Eu quero eu fora. EU
que ir pra fora de onde está tão devastado e de onde eu tinha
pintado tudo de azul pra te ver sentado bem no centro. No
centro do meu peito, você, com a luz azul da minha esperança.

A tristeza me fez um milhão de vidas essa semana. Um milhão
de almoços e jantares e projetos. Eu sorrindo, implorando às
distrações que me levem, que façam remendos em meu peito
perfurado pela violência do ar que não assovia mas os seus
sons.



A tristeza me fez cortar o cabelo e pintar de loiro. E me fez
aumentar os pesos do pilates. E me fez prometer alguma
sedução para alguém que jamais receberá nada de mim. Não
existe nada mais triste do que essas coisas de dar a volta por
cima e essas coisas de trocar o barco e essas coisas de sacudir a
poeira e essas coisas medonhas que a gente fala ou pensa ou
ouve. A tristeza são frases vazias e feitas e tediosas saindo de
bocas vazias e feitas e tediosas.

A tristeza me faz repartir o calmante no meio. Tomar um. E
tomar o outro. Porque nem calmante eu to suportando ver pela
metade. Que pelo menos no limbo da mina mente triste
alguma coisa possa viver inteiramente.

A tristeza é uma parede, uma geladeira, um computador, um
telefone, uma televisão, uma cama, um elevador, um carro. A
tristeza são as ruas, os jornaleiros, as pessoas gordas
atravessando, as pessoas magras atravessando. A tristeza é o 
cinza, o vermelho, o azul, o transparente A tristeza é a próxima
música, a próxima seta pra direita, a próxima seta pra
esquerda. A tristeza é o ar que sai e o ar que entra. A tristeza é
o segundo de ar que se perde e fica mais um tempo. A tristeza
é dizer que são cinco dias, são seis dias, são sete dias. A tristeza
é a nossa última vez juntos fazendo quinze dias, dezesseis dias,
dezessete dias. A tristeza é o amor e não saber o que é acabar
e não saber o que é não acabar. A tristeza só sabe que é triste e
todo o resto ela só tenta saber, mas fica louca e desiste. A
tristeza é de uma simplicidade que a torna ainda mais triste.

A tristeza é qualquer posição senta ou em pé ou deitada. A
tristeza é deitar e levantar. Tentar ou desistir carregam a 
mesma tristeza das coisas que não existem. Minhe pele toca no
oano, na água, na tela, uma mão toca na outra. Todos os
toques são tristes. Todas as posições são tristes. Amanhã será
triste, ontem foi triste. Hoje é o dia mais triste do mundo.

É porque eu tenho medo de dirigir até o Morumbi no escuro? É
porque eu sou pijama feio pra dormir? É porque eu sou egoísta
e louca e tenho um dente torto? É porque eu ria de você e ria
das suas coisas e ria das suas músicas e ria de nervoso pporque
eu gostava tanto de você que odiava você? É porque eu criei
sete mil muros pra receber alguém mas queria esmurrar até
sangrar o seu único muro como se você também não fosse
humano? Ou é só porque é assim mesmo? Assim: finito.
simples e triste demais.

Hoje elegi o mais triste de tudo. É o banquinho que guardava a
sua bolsa de carteiro e que não guarda mais nada. Ele agora é´
só o que era mesmo pra ser: um banquinho. Limpo, solitário,
imponente, em sua nobre função de banquinho.

Sua triste, desgraçada, branca, idiota e livre função de
banquinho.

Tati Bernadi



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